Ciência e tecnologia
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Por que o IPv4 acabou

E o que a escassez de endereços fez com o custo da internet no Brasil

11 min

23/09/2026 11:28 • Atualizado há 23 horas

Por que o IPv4 acabou

A internet brasileira funciona sobre um recurso que ninguém vê e que parou de ser distribuído: os endereços IPv4. O registro que atende a América Latina não tem mais reservas, os provedores adotaram compartilhamento em massa para seguir vendendo acesso, e ter um endereço identificável virou item contratado à parte, com preço de mercado. Esta é a conta de um insumo invisível.

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Orçamentos de tecnologia de empresas brasileiras passaram a incluir uma linha que não existia há uma década: o aluguel de endereços de internet. Não é banda, não é servidor, não é licença de software. É o direito de usar um número — um endereço IP público, fixo, atribuído a quem contrata e a mais ninguém. A linha apareceu no orçamento porque o estoque desses números acabou.

O esgotamento do IPv4, a versão do protocolo que ainda sustenta boa parte do tráfego mundial, deixou de ser assunto de engenheiro de rede e virou item de custo. Provedores de acesso adotaram técnicas de compartilhamento para atender clientes novos sem endereços novos. Empresas que dependem de um IP identificável — para liberar acesso a sistemas internos, manter câmeras acessíveis de fora, entregar e-mail sem cair em filtro, operar integrações com bancos e órgãos públicos — descobriram que aquilo que vinha embutido no contrato de banda larga virou serviço separado, cobrado por unidade.

O que é um endereço IP e por que o mundo só tem cerca de 4,3 bilhões deles

Todo aparelho conectado precisa de um endereço para receber dados. É a mesma lógica de uma correspondência: sem destinatário, o pacote não chega. No IPv4, esse endereço é um número guardado num campo de 32 bits — 32 casas que só aceitam zero ou um. Cada casa dobra o total de combinações possíveis, e 32 casas produzem pouco mais de 4,29 bilhões de endereços distintos. Esse é o teto matemático do protocolo. Não é uma política que pode ser revista nem um estoque que alguém possa ampliar: é o tamanho do campo.

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Quando o desenho foi fechado, nos anos 1980, a rede era acadêmica e militar, e 4,3 bilhões pareciam um número sem fim. A conta mudou de escala. Só no Brasil há entre 157 e 163 milhões de internautas, segundo a TIC Domicílios 2025, do Cetic.br. Cada pessoa conecta celular, computador, televisão, relógio, campainha, câmera. Some a isso servidores, roteadores, equipamentos industriais e sensores espalhados por operadoras.

O espaço nominal, além disso, nunca esteve inteiro disponível. Faixas grandes foram reservadas desde o início para uso interno de redes privadas, para testes e para funções específicas do protocolo, e jamais circularam na internet pública. Outra parte foi entregue em blocos enormes, nos primeiros anos, a instituições que pediram muito mais do que usariam, quando a distribuição era generosa porque o recurso parecia infinito. O resultado prático é que o número utilizável sempre foi menor do que o teto teórico — e ele se esgotou primeiro nas regiões que cresceram depois.

Sem reservas na América Latina: a fila do LACNIC e o mercado de blocos usados

Endereços IP não são vendidos por uma empresa. São distribuídos por registros regionais, organizações sem fins lucrativos que recebem faixas de um órgão global e as repassam a provedores, operadoras e grandes usuários, mediante justificativa técnica. O Brasil é atendido pelo LACNIC, o registro da América Latina e do Caribe, que opera no país por meio do NIC.br.

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As reservas de IPv4 do LACNIC se esgotaram. O registro deixou de ter blocos livres para alocar e passou a operar por uma fila: quem precisa de endereços entra em uma lista de espera por blocos de IPv4 mantida pelo próprio LACNIC e só é atendido quando endereços voltam ao estoque — normalmente porque uma organização devolveu o bloco, encerrou as atividades ou teve a alocação recuperada. O tamanho do bloco entregue a cada nova requisição também encolheu.

Isso reorganizou o mercado. Um provedor regional que queira crescer não consegue mais pedir endereços proporcionais ao número de assinantes que pretende conquistar. Quem já tinha blocos alocados nos anos de fartura passou a deter um ativo escasso. Formou-se então um mercado secundário: transferências de blocos entre organizações, intermediadas por corretoras especializadas, e contratos de aluguel em que o titular mantém o registro e cede o uso por prazo determinado. Endereços que um dia foram distribuídos de graça, mediante formulário, viraram linha de balanço — e, como qualquer ativo com oferta travada e demanda crescente, seguiram o caminho previsível do preço.

CGNAT: o paliativo que fez centenas de clientes dividirem o mesmo endereço

Faltando endereços para distribuir, os provedores brasileiros recorreram a uma solução de engenharia chamada CGNAT, sigla em inglês para tradução de endereços em escala de operadora. O mecanismo é simples de descrever: em vez de entregar um endereço público a cada assinante, o provedor entrega um endereço privado, válido apenas dentro da rede dele, e concentra centenas de clientes atrás de um mesmo endereço público na saída para a internet. Um equipamento central faz a tradução, anotando qual conexão pertence a quem.

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Para o consumo típico, o arranjo funciona sem que ninguém perceba. Navegar, assistir a vídeo, usar aplicativo de mensagem e fazer compra são operações em que o aparelho inicia a conexão e o destino apenas responde. Como 65% dos internautas brasileiros acessam a rede só pelo celular, segundo o Cetic.br, o padrão de uso dominante no país é justamente esse. O CGNAT adiou um colapso de endereçamento e permitiu que a base de assinantes continuasse crescendo.

O problema aparece quando alguém precisa ser encontrado, e não apenas encontrar. Conexões de entrada deixam de funcionar de forma direta: uma câmera que deveria ser acessada do celular, um gravador de imagens, um servidor de arquivos no escritório, um acesso remoto a sistema interno. O trabalho remoto ampliou a demanda por esse tipo de ligação — o IBGE registrou 7,9% dos trabalhadores em home office em 2024, cerca de 6,6 milhões de pessoas, e boa parte delas depende de túneis de rede até a estrutura da empresa.

Há um segundo efeito, menos óbvio e mais caro. Endereço compartilhado significa reputação compartilhada. Serviços que avaliam risco levam o IP em conta: o Google, por exemplo, descreve em sua política de dados de localização que usa o endereço para inferir a área geral do usuário e para detectar um login em outra cidade. Sistemas de segurança bloqueiam ou desafiam endereços com histórico ruim — e a defesa automatizada é regra, não exceção, num ambiente em que 51% do tráfego da internet é não-humano e 37% do total vem de bots maliciosos, segundo levantamento da Imperva de 2025. Quando um vizinho de endereço dispara mensagem em massa ou tenta invadir algum serviço, a empresa que divide aquele IP herda a marca. Ninguém é notificado; o sintoma é o site que pede verificação a toda hora, o e-mail que cai na caixa de spam, o painel de fornecedor que recusa a conexão.

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O terceiro efeito é contratual. Bancos, operadoras de meios de pagamento, sistemas de gestão e órgãos públicos costumam liberar acesso por lista de endereços autorizados. Uma indústria de médio porte que precise informar ao banco de qual IP sairão os arquivos de pagamento simplesmente não tem um número estável para informar quando está atrás de CGNAT: o endereço público é compartilhado e pode mudar. O procedimento padrão de segurança corporativa deixa de ser executável.

O IPv6 avança no Brasil e ainda assim não dispensa o IPv4

A solução definitiva existe desde os anos 1990 e se chama IPv6. Em vez de 32 bits, o endereço tem 128 — o que eleva o total de combinações a uma ordem de grandeza sem paralelo prático, suficiente para atribuir endereços públicos a cada dispositivo por gerações. Não há escassez de IPv6 e, por isso, não há mercado secundário, fila de espera nem preço de leilão.

O Brasil está entre os países que mais avançaram nessa transição. Dados do NIC.br apontam que 50,4% do tráfego de internet no país já roda em IPv6, marca alcançada em dezembro de 2024, e que 89% dos usuários finais brasileiros têm conectividade IPv6 disponível. O detalhamento está no balanço do projeto IPv6.br sobre a marca de 50% de adoção no país. É um resultado melhor que o da maioria dos mercados comparáveis.

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Mesmo assim, o IPv4 continua necessário — e é isso que sustenta o preço. IPv6 só funciona quando as duas pontas falam o protocolo. Se o cliente tem IPv6 e o destino não tem, a conexão precisa sair por IPv4. Como há um volume relevante de serviços, painéis administrativos, servidores corporativos e equipamentos antigos que jamais foram atualizados, a rede opera em pilha dupla: os dois protocolos convivendo no mesmo acesso. Enquanto existir um destino relevante que só aceite IPv4, nenhuma empresa pode abrir mão de um caminho por IPv4. A adoção do IPv6 reduz a pressão sobre o estoque antigo, mas não elimina a dependência.

O que sobrou para quem precisa de endereço próprio hoje

Na prática, quem precisa de um endereço identificável tem três caminhos. O primeiro é pedir IP fixo ao provedor de acesso, opção que nem sempre é oferecida no plano residencial e costuma exigir migração para um contrato empresarial, com custo mensal maior e prazo de fidelidade. O segundo é contratar um link dedicado, solução robusta e cara, dimensionada para quem tem estrutura de rede própria. O terceiro é contratar o endereço à parte, de um fornecedor especializado, mantendo o acesso à internet que já existe.

É nesse terceiro caminho que a escassez aparece com clareza na tabela de preços. Fornecedores do setor, como a ProxyBox, cobram no Brasil cerca de R$ 30 por mês para um IPv4 dedicado — valor que cai para R$ 23,40 por unidade em contratações acima de 50 endereços — e oferecem períodos de teste de sete dias por R$ 12,90 antes da contratação. O mesmo serviço em IPv6 sai por R$ 13,90 por endereço, chegando a R$ 4,10 em lotes maiores. Endereços registrados no sistema autônomo de uma operadora residencial, e não em blocos de datacenter, custam a partir de R$ 50 mensais. A comparação entre as duas primeiras faixas é o retrato mais direto do que a escassez fez: o protocolo antigo, limitado e disputado, custa mais que o dobro do protocolo novo e abundante, para entregar exatamente a mesma função técnica.

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Vale um limite importante sobre o que esse tipo de contratação resolve. Separar infraestrutura não contorna regra de plataforma: uma conta que viola a política de um serviço é derrubada com IP dedicado ou sem ele. O que a separação de endereços resolve é outra coisa — impedir que o comportamento de um desconhecido, ou o problema de um sistema, contamine tudo o que a empresa opera pelo mesmo caminho de saída.

Antes de contratar, três verificações separam fornecedor sério de revenda improvisada. A primeira é o tipo de registro: um endereço em bloco de datacenter e um endereço registrado no sistema autônomo de uma operadora doméstica são tratados de forma diferente pelos serviços de destino, e nem todo uso aceita o primeiro. A segunda é se o endereço é realmente dedicado ou apenas compartilhado entre menos gente — a diferença determina se a reputação é sua ou herdada. A terceira é o histórico: endereço reciclado carrega o passado de quem o usou antes, e o período de teste existe justamente para verificar isso contra os serviços que a empresa usa de fato.

Há ainda um teste doméstico que antecede qualquer contratação e não custa nada: comparar o endereço que o roteador exibe na interface de administração com o endereço público que aparece ao consultar um serviço externo de verificação de IP. Se os dois números forem diferentes, o acesso está atrás de CGNAT, e nenhuma configuração feita dentro da empresa vai devolver a possibilidade de receber conexões de fora. A constatação muda a natureza da decisão: não se trata de ajustar equipamento, e sim de comprar um recurso que o provedor não tem para entregar. A partir daí, a conta é de comparação — o custo mensal de um endereço avulso contra o custo de migrar todo o acesso para um contrato empresarial com IP fixo, em que o endereço vem junto com banda garantida, prazo de fidelidade e um nível de serviço que nem toda operação precisa.

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O que esperar dos próximos anos

A oferta de IPv4 não vai aumentar. O estoque não se recompõe, a fila do registro regional depende de devoluções e a distribuição original não será refeita. Nesse quadro, o preço de um endereço IPv4 tende a acompanhar a escassez enquanto houver demanda — e a demanda só cede quando os dois lados de uma conexão relevante falarem IPv6.

O ponto de virada, portanto, não está do lado do usuário brasileiro, que já está majoritariamente pronto, com 89% de cobertura entre usuários finais. Está do lado dos destinos: provedores de aplicação, sistemas corporativos legados, equipamentos embarcados e integrações que ainda respondem apenas em IPv4. A cada serviço que habilita o protocolo novo, um pedaço da pressão sobre o estoque antigo desaparece. É uma transição que se mede em anos, não em trimestres.

Para quem toma decisão de infraestrutura, a consequência prática é tratar endereçamento como item orçamentário com custo próprio e previsível, do mesmo jeito que se trata armazenamento ou banda. Isso significa três perguntas objetivas: se o acesso da empresa está atrás de CGNAT, quais sistemas críticos dependem de IP fixo autorizado em lista, e se os fornecedores de software e nuvem já entregam IPv6. Responder a essas perguntas antes de um problema aparecer custa menos do que descobrir a resposta no dia em que o arquivo de pagamento não sobe — e esse é o tipo de conta que um recurso invisível impõe quando deixa de ser abundante.

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