Casos jornalísticos da carreira de Valter Sena
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Batismo de fogo

Uma manhã tranquila e uma reviravolta inesperada

3 min

14/09/2026 17:09 • Atualizado há 9 dias

Batismo de fogo

Era uma linda manhã de sol em Campinas naquela sexta-feira, 28 de fevereiro de 1997. Um final de verão em que os termômetros chegavam aos 31 graus.

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Tudo caminhava para mais um pacato dia de expediente no terceiro andar do Palácio dos Jequitibás, sede da Prefeitura de Campinas.

Eu integrava a equipe da assessoria de imprensa havia menos de um mês. Ainda dava os primeiros passos na comunicação pública, atendendo cinco secretarias municipais do governo Chico Amaral.

Mas a calmaria durou até as dez da manhã.

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O silêncio do terceiro andar foi rompido por uma sequência de estampidos brutais e assustadores.

Neldo Cantanti, fotógrafo experiente que emprestava seu talento para registrar os eventos oficiais da Prefeitura, estava sentado exatamente à minha frente, lendo um jornal.

Quando aquele som começou, ele imediatamente baixou o jornal e me olhou por cima dos óculos, com o semblante sério.

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Nós dois falamos ao mesmo tempo:

— Isso é tiro!

Nenhum de nós era vidente. Mas alguns anos de jornalismo nas ruas eram suficientes para reconhecer o barulho inconfundível de uma rajada de metralhadora.

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Lá embaixo, no saguão do Palácio dos Jequitibás, seis criminosos fortemente armados tentavam interceptar um malote com 250 mil reais que havia acabado de chegar ao Banespa. O dinheiro seria usado no pagamento de aposentados e pensionistas do serviço público municipal.

Um dos vigilantes reagiu à ação dos bandidos.

Começou um tiroteio.

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Na tentativa desesperada de fugir antes da chegada da polícia, os assaltantes dispararam a esmo, transformando o teto do saguão numa peneira perfurada por balas.

Seis pessoas ficaram feridas. Dois vigilantes foram atingidos de raspão. Duas funcionárias públicas sofreram ferimentos provocados por estilhaços e um aposentado levou um tiro na barriga precisando passar por cirurgia.

Foi o som daqueles disparos que ecoou pelo vão livre do Paço Municipal e subiu como uma enorme caixa de ressonância até o terceiro andar, onde estávamos.

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O pânico tomou conta do prédio.

E havia um detalhe que elevava o medo à décima potência.

Os pavimentos da Prefeitura haviam sido construídos como grandes áreas abertas, divididas por estruturas de Eucatex. As salas eram separadas apenas por aquelas divisórias frágeis, que não ofereciam qualquer resistência a um projétil de arma pesada.

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Orientei alguns colegas a se posicionarem atrás das colunas de concreto que sustentavam a estrutura do prédio.

Foi tudo muito rápido.

Mas, enquanto alguns procuravam proteção, o trabalho de bastidor estava apenas começando.

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O experiente Neldo agarrou a Nikon que permanecia sempre ao seu lado e correu para o parapeito e pelas escadarias.

Foi o primeiro a registrar o rastro de destruição, o corre-corre e as equipes de primeiros socorros atendendo as vítimas do tiroteio.

Era um verdadeiro furo interno de reportagem.

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Naquele tempo, o jornalismo ainda dependia do tempo físico: o filme precisava ser revelado, as fotografias tinham de chegar às redações e os jornais estavam muito longe da agilidade digital que conhecemos hoje.

Naquela manhã, porém, o Palácio dos Jequitibás havia se transformado no centro das atenções.

No dia seguinte, as fotos exclusivas de Neldo estampavam as primeiras páginas dos jornais.

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A reação dos seguranças do banco e a chegada rápida da polícia frustraram o plano dos criminosos, que deixaram o local sem levar o dinheiro. Quatro dos seis assaltantes foram presos nas imediações do Palácio dos Jequitibás.

O prefeito Chico Amaral tratou o episódio como uma questão de segurança pública, já que a responsabilidade pelo dinheiro era do banco e a repressão ao crime cabia às forças policiais do governo do estado.

Para mim, porém, aquela sexta-feira de sol forte e céu azul teve outro significado.

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Foi meu verdadeiro batismo de fogo na comunicação pública.

Eu havia mudado de lado no balcão da notícia. Mas naquele dia descobri uma coisa que nunca mais esqueci:

O calor das ruas não sai de dentro da gente.

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