O inimigo oculto no laboratório da Unicamp
Em 1989, uma reportagem revelou que, no laboratório, a limpeza é relativa

Em 1989, a TV Tracajá acompanhava os avanços da ciência. Eu fazia parte da equipe do repórter Ciro Porto, destacada para acompanhar uma pesquisa no Departamento de Microbiologia e Imunologia do Instituto de Biologia da Unicamp.
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O tema era complexo e tinha potencial para virar reportagem nacional. Tanto que o então chefe de redação, José Paschoal Neto, foi até o laboratório e participou da reunião de produção da pauta.
A pesquisa tratava de uma questão fundamental para a ciência: substituir camundongos de origem duvidosa por animais com perfil genético e sanitário rigorosamente controlado.
Os pesquisadores explicavam que, para um experimento realizado em Campinas apresentar o mesmo resultado quando repetido na Europa ou nos Estados Unidos, era preciso garantir que os animais utilizados fossem geneticamente e sanitariamente semelhantes.
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Tudo anotado, chegou a hora de entrarmos no ambiente onde os camundongos ficavam.Foi aí que apareceu a surpresa.
Antes de entrar, fomos encaminhados para uma espécie de antessala. Precisávamos vestir roupas esterilizadas: macacão, luvas, touca e proteção para os pés.Achei aquilo tudo um pouco exagerado e perguntei ao pesquisador que nos acompanhava:
— Isso é para a gente não pegar nenhum vírus lá dentro, não é, doutor?Ele sorriu e respondeu:
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— Pelo contrário. É para vocês não contaminarem os ratos.Silêncio.
Foi naquele momento que descobri que, naquele laboratório, os ratos eram mais limpos do que nós.
Aqueles camundongos nasciam e cresciam em um ambiente de isolamento absoluto. Não tinham contato com os vírus, bactérias e fungos comuns do mundo exterior.
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E justamente por isso eram tão importantes para a pesquisa.
O que para nós seria uma simples gripe poderia ser um desastre para eles. Um espirro, uma roupa contaminada ou o simples contato sem a proteção adequada poderia introduzir um microrganismo na colônia e alterar as reações biológicas dos animais.
Em casos extremos, uma contaminação poderia comprometer anos de pesquisa.Saí daquele laboratório com uma certeza que não estava prevista na pauta:
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Os cientistas não estavam protegendo a equipe de reportagem dos camundongos, e sim protegendo os animais da equipe de reportagem.
E, convenhamos, não é todo dia que a gente descobre que pode ser menos limpo do que um rato.
*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
