Juh em cena
Juh em cena

A Warner tentou apagar este filme mas esqueceu que o Coyote nunca desiste

O maior inimigo do protagonista não era o Papa-Léguas

4 min

04/09/2026 16:17 • Atualizado há 19 dias

A Warner tentou apagar este filme mas esqueceu que o Coyote nunca desiste

Eu preciso começar essa coluna fazendo uma pergunta muito simples: como você gasta cerca de US$ 70 milhões em um filme, termina o filme e depois decide que a melhor coisa a fazer é NÃO lançar o filme?

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Calma, porque piora. E obviamente estamos falando de Hollywood, um lugar onde aparentemente alguém pode entrar em uma reunião, abrir uma planilha e falar: “Gente, tive uma ideia. E se ninguém assistir?”. E alguém responde: “GENIAL”.

Foi mais ou menos esse o destino de “Coyote Vs. Acme”, filme que finalmente chegou aos cinemas depois de protagonizar uma das histórias mais inacreditáveis dos últimos anos. E olha que estamos falando dos Looney Tunes.

O longa foi gravado em 2022, estava pronto, finalizado, com atores, animação, efeitos, tudo bonitinho. Até que, em 2023, a Warner Bros. decidiu cancelar seu lançamento. “Juh, então deve ter ficado horroroso.” TAMBÉM PENSEI. Mas não.

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A decisão não aconteceu porque o estúdio considerava o filme ruim. A ideia era arquivá-lo como uma baixa contábil, conseguindo benefícios fiscais e evitando novos gastos com marketing e distribuição. Sim. O maior inimigo do Coyote não era o Papa-Léguas. Era o setor financeiro da Warner.

E essa é a parte que simplesmente não entra na minha cabeça. Filmes são cancelados o tempo todo durante o desenvolvimento. Projeto muda, orçamento explode, roteiro não funciona, alguém desiste… acontece. Só que “Coyote Vs. Acme” ESTAVA PRONTO. Foram milhões de dólares e centenas de profissionais trabalhando para, no final, alguém decidir: “Então… coloca na gaveta”.

Inclusive, integrantes da equipe chegaram a participar de uma espécie de “exibição funeral” do longa. FUNERAL. DO FILME. Imagine trabalhar durante meses em uma produção e receber: “Oi! Vamos assistir ao nosso filme porque talvez ninguém mais veja ❤️”. Eu precisaria de pelo menos três dias úteis para processar.

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Só esqueceram de um pequeno detalhe: aparentemente o filme era bom.

Algumas pessoas que tiveram acesso à produção começaram a defendê-la. O produtor Chris DeFaria ficou preocupado que o cancelamento criasse justamente a impressão de que o longa estava sendo escondido por ser um desastre e passou a tentar mudar essa narrativa. Outros nomes de Hollywood também entraram na conversa, entre eles Phil Lord e Christopher Miller, de “Homem-Aranha no Aranhaverso”, e os fãs começaram a pressionar.

De repente, a história deixou de ser “Warner cancela filme” e virou “POR QUE VOCÊS NÃO QUEREM DEIXAR A GENTE ASSISTIR?”. Aí ficou interessante.

A Warner chegou a procurar compradores, plataformas demonstraram interesse e negociações aconteceram, mas nada avançou. Durante um tempo, “Coyote Vs. Acme” ficou naquele maravilhoso limbo de Hollywood: o filme existe, está pronto, pessoas assistiram… mas você não pode ver.

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É quase uma creepypasta cinematográfica. Dizem que existe uma cópia de “Coyote Vs. Acme” escondida em algum lugar dos Estados Unidos e que, se você falar “meep meep” três vezes na frente do espelho…

Enfim. FOCO.

Em março de 2025, a Ketchup Entertainment comprou os direitos de distribuição e garantiu o lançamento nos cinemas em 2026. O Coyote estava oficialmente vivo. E agora vem a cereja do bolo: quando finalmente começaram as exibições, as pessoas gostaram do filme.

Na San Diego Comic-Con de 2026, a recepção foi positiva. Depois vieram jornalistas e críticos, e o longa chegou a estrear com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.

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Desculpa, mas imagine cancelar um filme para economizar dinheiro e, alguns anos depois, ver outra empresa lançando esse mesmo filme enquanto as pessoas elogiam. Eu evitaria abrir o Twitter nesse dia.

E tem mais uma ironia maravilhosa nessa história. Caso você não saiba do que se trata “Coyote Vs. Acme”, o filme acompanha Wile E. Coyote depois de anos comprando produtos da ACME para capturar o Papa-Léguas e, obviamente, se explodindo, caindo de penhascos e descobrindo novas formas de desafiar a física. Cansado disso tudo, ele decide fazer o que qualquer adulto traumatizado faria: PROCESSAR A EMPRESA.

Finalmente o Coyote descobriu o Direito do Consumidor.

Ou seja: no filme, ele enfrenta uma corporação gigantesca que passou anos ferrando com a vida dele. Na vida real, o próprio filme precisou lutar para sobreviver às decisões de uma corporação gigantesca. Cinema. Às vezes o roteiro simplesmente se escreve sozinho.

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É engraçado resumir tudo como “a Warner gastou milhões num filme e tentou fazer ninguém assistir”, mas existe uma discussão séria no meio dessa maluquice. Um filme não aparece magicamente dentro de um servidor. Existem roteiristas, atores, animadores, técnicos, editores e centenas de profissionais que passaram meses trabalhando para aquela obra existir. E aí você percebe como a lógica financeira de Hollywood pode chegar a um ponto bastante estranho: um filme completamente finalizado pode valer mais como número em uma planilha do que como filme.

Por isso acho particularmente perfeito que justamente “Coyote Vs. Acme” tenha conseguido escapar. Se existe um personagem que passou décadas sendo esmagado, explodido, atropelado, arremessado de penhascos e mesmo assim continuou tentando, era ele.

O Coyote sobreviveu à dinamite, às armadilhas da ACME e ao Papa-Léguas. Agora pode adicionar mais uma conquista ao currículo:

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sobreviveu aos executivos de Hollywood.

*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.