Reflexão
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O último carrinho

A última vez que brincamos de carrinho.

8 min

13/09/2026 14:12 • Atualizado há 10 dias

O último carrinho

Tem uma coisa sobre a vida que ninguém conta para a gente. Quase nunca sabemos quando alguma coisa está acontecendo pela última vez.

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A última vez que jogamos dominó.

A última vez que brincamos de carrinho.

A última vez que alguém dorme no nosso colo.

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A última vez que uma criança pede para você brincar.

A última vez que você entra em determinado lugar sem imaginar que nunca mais vai voltar.

A última vez que você conversa com alguém sem saber que aquela conversa ficará guardada para sempre.

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O curioso é que, na hora, não acontece nada. Não toca uma música triste. Não aparece uma legenda dizendo: “Atenção. Aproveite... Esta é a última vez.”

A vida não tem esse cuidado cinematográfico com a gente. Ela simplesmente acontece. E depois passa.

Esses dias pensei no Breno meu filho.

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Houve uma última vez em que nós brincamos de carrinho. Eu não sei qual foi. Não lembro onde estávamos, qual carrinho era, quem ganhou a corrida imaginária ou qual era a pista improvisada no chão da sala.

Não lembro.

E isso me dá uma espécie de susto.

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Porque aquele momento, tão banal, era uma despedida. Só que nenhum de nós sabia.

Talvez o carrinho tenha sido estacionado pela última vez sem que eu percebesse que aquela garagem estava fechando para sempre.

Depois vieram outras coisas.

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Jogos diferentes. Conversas diferentes. Interesses diferentes.

O menino foi crescendo.

E eu fui ficando com aquele estranho privilégio que os pais têm... assistir ao filho deixar de precisar de algumas coisas que, para nós, eram tão importantes. Até que um dia a gente percebe que não tem mais uma criança em casa.

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Tem uma pessoa.

E talvez seja essa a parte mais bonita e mais cruel do tempo... ele não pergunta se estamos preparados.

Ele simplesmente leva.

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Leva os brinquedos, as fases, os hábitos, os lugares, os cabelos, algumas pessoas, algumas versões de nós mesmos.

E deixa outras coisas no lugar.

Tenho pensado muito nisso nos últimos anos. Talvez porque dos 45 aos 50 alguma coisa tenha mudado dentro de mim. Não foi uma revelação bonita.

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Não teve pôr do sol, violino ao fundo nem um beduíno montado em um camelo me entregando um pergaminho. Foi bem menos romântico. Foram goles de realidade.

Comecei a perceber que eu já não era exatamente aquele Alê que existia alguns anos antes.

O músico de banda de rock.

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O sujeito cheio de energia.

O humorista que entrava em qualquer lugar como se tivesse tomado três litros de café e ainda tivesse energia para mais dois shows.

Aquele cara continua existindo em algum lugar dentro de mim, evidentemente.

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Mas ele envelheceu.

E eu também.

Agora estou chegando aos 51.

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E existe uma conta que a gente evita fazer durante boa parte da vida. Não é a conta do dinheiro.

É a conta do tempo.

Quando somos jovens, parece que o futuro é uma coisa enorme, quase infinita.

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Aos 20, 30 anos parecem uma eternidade. Aos 30, 50 ainda parecem longe. Aos 40, você começa a perceber que o calendário está correndo. Aos 50, talvez pela primeira vez você olhe para trás e perceba que existe mais passado do que futuro.

Não estou dizendo isso para fazer você chorar. Mas é uma constatação!

Se eu olhar para a minha própria história, é bastante provável que eu já tenha vivido mais anos do que ainda tenho pela frente.

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E essa frase, quando escrita, parece muito mais pesada do que quando pensada. Mas existe uma diferença enorme entre perceber que a vida é finita e viver esperando a morte.

Não estou interessado na segunda opção. A finitude não deveria ser uma obsessão. Talvez devesse ser uma lente. Uma lente que muda um pouco a maneira como olhamos para as coisas.

Porque, se eu soubesse que aquela era a última brincadeira de carrinho com o Breno, talvez tivesse prestado mais atenção.

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Se soubesse que aquela era a última vez que determinado amigo estaria sentado comigo, talvez tivesse prolongado a conversa.

Se soubesse que aquele seria o último aniversário de alguém, talvez tivesse abraçado um pouco mais, ido embora mais tarde.

Se soubesse que determinada fase profissional estava terminando, talvez tivesse reclamado menos e aproveitado mais.

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Mas não sabíamos.

E essa é a regra.

A última vez quase sempre se disfarça de rotina.

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É isso que me impressiona.

A última vez não costuma parecer importante.

Às vezes é uma terça-feira.

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Às vezes é um café qualquer.

Às vezes é uma brincadeira no chão da sala.

Às vezes é uma conversa enquanto alguém lava a louça.

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Às vezes é uma música que ouvimos no rádio sem imaginar que nunca mais vamos ouvi-la do mesmo jeito.

Talvez a vida seja feita dessas pequenas despedidas que só ganham nome depois.

A infância termina antes de alguém anunciar o fim.

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A juventude também.

Uma carreira pode acabar sem uma cerimônia. Um casamento pode mudar antes que alguém perceba que alguma coisa ficou para trás. Uma amizade pode ter sua última conversa muito antes de alguém descobrir que era a última.

E, nos relacionamentos amorosos, também já se foram várias últimas vezes.

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Eu e a Ana temos exatamente a mesma idade. Quantas últimas coisas já fizemos mesmo estando juntos, sem perceber que eram as últimas? Quantas fases, hábitos, lugares, conversas, viagens e versões de nós dois já ficaram para trás, enquanto seguimos pretendendo continuar a caminhada por mais tempo?

Até nós mesmos vamos terminando várias vezes durante a vida.

Eu já fui alguns Alês.

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E alguns deles morreram sem morrer.

O Alê músico.

O Alê do começo da carreira.

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O Alê que tinha determinadas certezas.

O Alê que acreditava que determinadas coisas ainda estavam muito longe.

Algumas versões minhas ficaram pelo caminho.

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E talvez isso seja envelhecer.

Não é simplesmente acumular anos.

É acumular versões de si mesmo que já não existem.

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Há uma frase em uma canção do Oswaldo Montenegro que me persegue de um jeito bonito:

“Quantos defeitos sanados com o tempo... Eram o melhor que havia em você.”

É uma frase que parece simples, mas, quanto mais a gente envelhece, mais ela ganha peso.

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Porque o tempo não apenas corrige. Ele também apaga.

Aquele defeito que você tinha aos vinte anos e que hoje não tem mais talvez fosse justamente uma das coisas que faziam você ser aquele sujeito.

Aquela ansiedade que desapareceu.

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Aquela coragem meio inconsequente.

Aquela mania.

Aquela ingenuidade.

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Aquela disposição de sair sem saber exatamente para onde.

Aquela vontade de fazer tudo ao mesmo tempo.

A gente vai chamando tudo isso de amadurecimento.

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E é. Mas também é despedida.

Porque amadurecer é, em boa parte, deixar de ser quem você era. E talvez seja por isso que eu tenha começado a olhar para o passado com uma certa ternura.

Não necessariamente com saudade. Ternura.

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Porque eu não quero voltar a ser aquele Alê, mas também não quero desprezar aquele cara.

Ele fez o que podia com as ferramentas que tinha. Foi músico, foi humorista, foi radialista, errou, acertou, exagerou, teve pressa, teve medo, achou que sabia algumas coisas e descobriu depois que não sabia quase nada.

E ainda bem.

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Se eu pudesse encontrar aquele Alê hoje, talvez dissesse apenas...

“Siga seu caminho tranquilo. Você ainda vai descobrir um monte de coisas.”

E talvez ele olhasse para mim e respondesse:

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“Você também.”

Talvez por isso eu tenha começado a olhar para algumas coisas com mais atenção. Não com aquela urgência desesperada de quem descobriu que um dia invariavelmente vai morrer. Todos vamos!

Mas com a tranquilidade possível de quem finalmente entendeu que nada é garantido.

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Um almoço. Uma conversa. Um amigo. Um filho. Um trabalho. Um amor. Uma piada. Um programa de rádio. Um dia comum.

A gente costuma achar que a vida é feita dos grandes acontecimentos.

Casamentos, nascimentos, viagens, conquistas, prêmios, grandes mudanças.

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Mas talvez não.

Talvez a vida seja principalmente aquilo que acontece enquanto estamos esperando alguma coisa importante acontecer.

O café que tomamos sem pensar.

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A voz de alguém chamando do outro cômodo.

O barulho da casa.

Uma música qualquer.

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Uma brincadeira que parece boba.

Um carrinho sendo empurrado pelo chão.

E talvez exista uma pergunta que eu tenha começado a fazer tarde demais...

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“Será que estou prestando atenção?”

Não para transformar cada minuto em um momento solene.

Isso seria insuportável. Imagine ter consciência de que cada jantar pode ser o último jantar. Você nunca mais conseguiria comer em paz.

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Mas prestar atenção.

Só isso.

Prestar atenção.

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Porque talvez aquele abraço seja o último daquele tipo. Talvez aquela conversa seja a última daquela fase. Talvez aquele filho ainda peça para brincar hoje, mas amanhã não peça mais. Talvez aquele carrinho esteja prestes a fazer sua última volta pela sala. E talvez, daqui a alguns anos, eu nem me lembre dele.

Mas eu gostaria de ter estado lá.

Essa talvez seja a grande questão que a idade está começando a me ensinar.

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Não temos controle sobre a última vez.

Mas temos algum controle sobre o quanto estivemos presentes nas vezes que vieram antes dela.

A vida vai acabar para todos um dia.

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Isso não é uma opinião.

É a única certeza que temos.

Só que, curiosamente, talvez seja justamente essa certeza que dê algum valor às outras coisas.

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A música termina. O filme termina. O programa termina. A viagem termina. A infância termina. A juventude termina. A vida termina.

E ainda assim a gente aperta o play. Entra no carro. Faz café. Conta uma piada. Abraça quem ama. Compra outro dominó.

E, quando aparece um carrinho no chão da sala, talvez pare por alguns segundos. Não porque sabe que é a última vez.

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Mas porque aprendeu, finalmente, que um dia todas as vezes serão.

E talvez seja isso que significa estar vivo... não saber qual é a última vez, mas ter a sorte de estar presente e inteiro enquanto ela acontece.

*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.

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