Show de horrores: espetáculo deprimente no STF mata o Brasil de vergonha
A corte está descaracterizada quando cada ministro tem a sua própria Constituição na cabeça
Eu tenho 32 anos de jornalismo, 28 na Band, 15 como correspondente e passei três anos em Brasília, na época para cobrir o mensalão. Posso afirmar que a sessão do Supremo Tribunal Federal de ontem foi o espetáculo mais deprimente a que já assisti na minha carreira. E a impressão não é só minha, mas também de vários colegas e observadores brasileiros e internacionais.
Continua depois da publicidade
O que o Brasil e o mundo viram ontem foi um circo dos horrores, com gritos, ameaças e ministros se interrompendo sem o menor decoro. Teve tudo! Menos o que estava em jogo: avaliar se o ministro Alexandre de Moraes precisa ser investigado ou não por suas relações com Daniel Vorcaro, banqueiro criminoso que causou o maior rombo financeiro da história do país.
E esse show de horrores foi noticiado por todo o planeta, para nos matar de vergonha. Por exemplo, o espanhol El País deu destaque ao bate-boca entre ministros e à manifestação de indignação de Cármen Lúcia, que se disse envergonhada e pediu desculpas ao povo brasileiro pelo papel do tribunal no episódio.
O britânico The Guardian fala em briga feroz na corte, e especialistas consideram esta a maior crise desde a redemocratização do Brasil, nos anos 1980. A agência americana Associated Press foi na mesma linha, chamando o episódio de crise sem precedentes. E, em maior ou menor grau, outros jornais internacionais seguiram na mesma linha.
Continua depois da publicidade
A ministra Cármen Lúcia foi a única dos 11 magistrados que traduziu o sentimento da nação ao se dizer envergonhada e pedir desculpas à população. Mas o Brasil precisa de mais do que isso.
As instituições estão politizadas, e já passou — e muito — da hora de uma reforma do guardião da Constituição, o Poder Judiciário. Mudanças na forma de nomeação dos ministros e a definição de mandatos seriam bem-vindas. Uma revisão das regras para decisões monocráticas também.
A corte está descaracterizada quando cada ministro tem a sua própria Constituição na cabeça. Não podemos esquecer do Senado: acovardado e inerte diante de um período tão difícil para a democracia brasileira.
Continua depois da publicidade
