Aos 38 anos, estudante realiza sonho de ser médica após carreira no direito
Durante anos, Gabriela Araújo Warttmann olhou para a medicina como um sonho impossível. Aos 38 anos, porém, a estudante do 8º semestre da Unibh Vespasiano

Durante anos, Gabriela Araújo Warttmann olhou para a medicina como um sonho impossível. Aos 38 anos, porém, a estudante do 8º semestre da Unibh Vespasiano vive aquilo que, durante muito tempo, sequer se permitiu imaginar: a formação para se tornar médica.
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Natural de Santa Maria (RS), Gabriela cresceu em uma família ligada à Aeronáutica. Filha de militar e casada com um militar, morou em diferentes Estados antes de chegar a Minas Gerais. Trabalha desde os 18 anos e construiu uma carreira consolidada no direito, com passagens por escritórios de advocacia e de contabilidade, pós-graduações e cargos de gerência em empresas conhecidas.
A medicina, entretanto, sempre esteve presente. “Eu sempre quis ser médica, mas nunca havia soltado isso para a vida”, conta. Para ela, o curso parecia distante por questões financeiras e também pelo receio de não conseguir se adaptar a uma graduação que exige tanto.
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A mudança começou a ganhar forma durante a pandemia. Os pais de Gabriela foram internados com Covid-19 ao mesmo tempo. O pai precisou ser intubado e passou por um longo período de recuperação. A mãe também foi intubada, transferida por UTI aérea para Recife e morreu após complicações da doença.

Gabriela ao lado da mãe, Lídia, que morreu durante a pandemia de Covid-19 I Crédito: Arquivo Pessoal
Gabriela permaneceu durante meses próxima do ambiente hospitalar, acompanhando a recuperação do pai. Foi ali, em meio à dor e à rotina de um cenário que ela descreve como “de guerra”, que teve a certeza de que havia nascido para fazer aquilo.
Dois anos depois, aos 34 anos, entrou para a faculdade de medicina. A decisão, no entanto, não foi simples. Independente financeiramente, ela tinha medo de voltar a estudar depois de cerca de 15 anos, tornar-se novamente dependente, não conseguir pagar o curso e não se encaixar entre os colegas. “Eu tinha medo de tudo”, resume.
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O apoio da família foi decisivo. O pai paga o financiamento estudantil, enquanto o marido mantém as despesas da casa. Gabriela escolheu a instituição de ensino por ser próxima de sua residência, ser conhecida e aceitar o financiamento Pravaler. Ela conta que foi aprovada no primeiro vestibular que prestou.
Além do apoio que recebe no seio familiar, Gabriela ressalta a relevância das amizades que construiu ao longo da sua vida e formação médica. “Os laços fortes com meus amigos me sustentam mentalmente para que eu siga firme nos meus objetivos”, avalia.

Gabriela ao lado do pai, Paulo, e do marido, Felipe, que apoiaram sua decisão de cursar Medicina I Crédito: Arquivo Pessoal
A realidade da faculdade superou suas expectativas
Em vez de um ambiente que imaginava mais cético e desumano, encontrou um curso que considera humanizado e voltado para a comunidade. Foi presidente do comitê de voluntariado criado após as enchentes no Rio Grande do Sul, iniciativa em que estudantes, sob supervisão de professores, atuam em campo oferecendo educação em saúde e consultas gratuitas.
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A formação também já colocou Gabriela diante de situações marcantes, como socorrer uma pessoa com crise epiléptica na rua, atender vítimas de acidentes e acompanhar atendimentos em um presídio de gestantes. Cada experiência reforçou a escolha.

Gabriela durante atendimento na Apac de Santa Luzia, em Minas Gerais I Crédito: Arquivo Pessoal
Gabriela conta que ainda não escolheu a especialidade que pretende seguir. Hoje, ela ainda se divide entre psiquiatria, geriatria, ginecologia, clínica médica e emergência. Mas já sabe que deseja ser o tipo de médica que escuta, olha nos olhos, não se preocupa com o relógio e consegue transformar a vida de alguém.
Para quem pensa em seguir o mesmo caminho da medicina, Gabriela enfatiza que o mais importante é que a pessoa não desista. “Nunca é tarde para começar. Vai dar certo!”, pontua. Para ela, sua trajetória de vida mudou a forma como ela enxerga seus próprios limites. “Não existe sonho inatingível”, conclui.
