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'Fugi do pai do meu filho e levei 38 anos para consertar esse erro'

Márcia narra a jornada para reunir seu filho, um lutador de MMA, com o pai que não via há 38 anos e que vive com uma condição de saúde mental; veja no Quem Ama Não Esquece

7 min

29/09/2025 18:50 • Atualizado há 304 dias

'Fugi do pai do meu filho e levei 38 anos para consertar esse erro'

Márcia decidiu criar seu filho, Leandro, sozinha, e para isso, desapareceu da vida de Airton, o pai da criança. Contudo, o peso daquela escolha a fez procurá-lo anos mais tarde, iniciando uma jornada que levaria quase quatro décadas e revelaria uma verdade inesperada sobre o homem que seu filho tanto precisava conhecer. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta segunda-feira (29).

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Márcia conta a história de sua família (Foto: Band FM)

Márcia conta a história de sua família (Foto: Band FM)

Ser mãe me ensinou que é possível enfrentar qualquer desafio quando quem você ama depende de você.

Quando eu descobri que estava grávida e decidi que ia criar o meu filho sozinha, eu já sabia que teria muito trabalho pela frente. O que eu não esperava era a imensidão do orgulho e do amor que eu sentiria por aquele pequeno ser, o meu filho.

Tudo começou há muito tempo, em uma cabine telefônica… É, cabine mesmo, daquelas antigas. Lá dentro, tinha um rapaz bonito que não parava de trocar olhares comigo. A gente começou a conversar e logo surgiu um relacionamento. A gente ficava, namorava de vez em quando e eu cheguei até a conhecer a mãe dele, mas não era nada sério. Não tinha compromisso de verdade.

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Naquela época, a vida corrida acabou afastando a gente, mas, aos 23 anos, nós nos reencontramos. Era o mesmo de antes... sem compromisso. Eu gostava dele, sim, mas algumas coisas nele sempre me deixavam com um pé atrás.

— Márcia, você ouviu isso?

— Isso o quê?

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— Isso... as vozes.

— Eu não tô ouvindo nada, Airton. Para com isso.

— É sério, Márcia... Às vezes, eu escuto algumas vozes. Algumas pessoas dizendo algumas coisas... Acho que a minha imaginação deve ser muito fértil.

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Eu até ouvia o que ele dizia, mas eu ignorava essas coisas.

Uma gravidez inesperada e uma decisão radical

Até que em uma das nossas ficadas, eu acabei engravidando, só que o que a gente tinha não era nada oficial, nada concreto, e eu decidi que o melhor era criar meu filho sozinha.

E assim foi… quando descobri a gravidez, eu simplesmente desapareci da vida dele.

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Eu era nova, meio imatura, estava assustada. Não que justifique, mas quem não comete erros na vida? Eu cometi... cometi ao achar que o melhor seria me afastar.

Mas os anos foram passando, e quando o meu filho completou dois anos, eu comecei a perceber que criá-lo sozinha não era justo. Nem para ele, nem para o pai dele. O meu filho tinha direito de conhecer o pai!

Então fui atrás dele, procurei a mãe dele e ela me disse que ele estava no Rio Grande do Sul, mas me falou para ficar tranquila porque falaria com ele.

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A mãe dele se encantou com o netinho! E olha, não é porque era meu filho… mas ele era lindo e fofo, mesmo! Todo mundo se apaixonava por ele.

Depois de um tempo, o pai dele veio a São Paulo para conhecer o filho.

— Meu Deus, é ele?

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— É, sim... É o teu filho.

— Ele é lindo! Como ele se chama?

— Leandro! É a nossa cara, não é?

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— É a coisa mais linda que eu já vi! Márcia e se... e se a gente tentar fazer isso dar certo? Nós dois... a gente consegue! Vamos fazer por ele. Uma família para o nosso filho! O que você me diz?

Eu aceitei, mas não deu muito certo. Já tinha passado muito tempo, e aquela paixão de antes… simplesmente não existia mais. E com uma criança no meio, não tinha como dar certo forçar uma relação sem amor.

Então, de forma mútua, nós decidimos que seria melhor ele tocar a vida dele e eu a minha. E assim, segui criando meu filho sozinha.

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Um campeão no ringue, uma dor no coração

Mais tarde, eu conheci outra pessoa, tive mais três filhos com ele, mas depois também não deu certo, e acabei seguindo sozinha novamente.

E lá estava eu, sozinha, com quatro filhos. Não era nada fácil. A gente morava em um bairro muito perigoso, e eu vivia com medo do que aquele lugar poderia influenciar neles. Eu me preocupava com cada detalhe da vida deles, com a educação, com a segurança… com tudo.

Até que eu consegui mudar a gente de bairro. Eu queria mostrar para eles que existia outro tipo de vida, um lugar diferente, cheio de oportunidades, e que eles poderiam ter isso.

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O Leandro já tinha 19 anos quando descobriu uma academia perto de casa e começou a fazer jiu-jítsu. Ele era um menino extremamente dedicado: trabalhava de dia e, à noite, estava na academia, treinando muito. Meu filho se apaixonou pela luta e depois do jiu-jítsu, veio o muay thai, o boxe, e enfim ele entrou no mundo do MMA, que para quem não conhece, é uma modalidade que mistura várias lutas. E foi aí que ele começou a lutar de forma profissional aqui no Brasil! Eu, claro, assistia a todas as lutas. Era divertido demais, principalmente porque ele ganhava todas! Meu orgulho pelo meu menino era enorme.

Eu, como mãe, me preocupava com a saúde dele, com o esforço físico e tudo mais, mas ele estava tão feliz… E só de ver aquela alegria no meu filho, eu já me sentia tranquila.

E, por conta do talento dele, surgiu uma oportunidade de lutar no Japão. Ele vendeu tudo o que tinha e partiu! Lá, o Leandro enfrentou vários adversários e ganhou até do segundo melhor do Japão.

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Foi aí que apareceu um empresário do UFC, uma organização de luta muito famosa. Ele se interessou pelo meu filho e quis levá-lo para o UFC. Ele ficou lá por um tempo, mas com o tempo acabou seguindo outros caminhos dentro do mundo da luta.

A busca que durou 38 anos

Hoje, ele mora nos Estados Unidos e trouxe muito orgulho para mim e para tantos brasileiros que gostam do esporte. Mas apesar de todas essas conquistas, eu sentia que tinha uma dor dentro dele… uma dor que ele nunca me contou, mas que eu sabia que existia, afinal, mãe é mãe, né?

Eu sabia que essa dor era sobre o pai dele... A ausência, o não saber quem ele realmente era, aquilo tudo machucava o Leandro.

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Eu já não fazia ideia do paradeiro do Airton, mas, como ouvinte da Band FM, decidi escrever para o Valtinho, e pedi ajuda dele através do programa "Eu Te Encontrei". Eu pensei que essa seria a melhor chance que eu teria de reencontrar o pai do Leandro.

E ele... ele encontrou! O pai do Leandro estava vivo e morava em São Paulo, mas junto com essa novidade, nós descobrimos também que ele tinha esquizofrenia.

É... fazia sentido... afinal, ele sempre teve alguns sintomas esquisitos, que eu mesma já tinha visto, mas na época, eu cheguei a pensar que ele usava drogas.

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A verdade revelada e um reencontro emocionante

Eu entrei em contato com a família dele para tentar marcar uma videochamada e avisei o meu filho sobre a condição do pai. Apesar de tudo, ele ficou muito feliz e animado! Muito mesmo.

Ele quis se preparar, estudou sobre a doença, tudo para estar bem para falar com o pai naquele momento... Eram 38 anos de separação entre eles.

Foi emocionante! O pai do Leandro não se lembrava das pessoas, mas mesmo assim se cuida sozinho e é totalmente independente. Por causa da falta de memória, começamos a retomar o contato devagar, aos poucos.

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Eu fiquei imensamente orgulhosa do meu filho. Ele conseguiu compreender a doença do pai e se segurou para não chamá-lo de… pai. Foi incrível!

Foram 38 anos... 38 anos sem saber quem era realmente o pai dele. Sem conhecer. Sem conversar. E depois da ligação, o meu filho me agradeceu e disse que precisava daquilo.

Foi ali que eu percebi o quanto era realmente importante para ele.

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Agora estamos à espera do encontro pessoalmente. O Leandro pretende vir ao Brasil, faz tempo que ele não vem, e quando vier, vai encontrar o pai cara a cara.

Eu tenho muito orgulho do meu filho e de tudo que ele conquistou. Ele é casado e tem três filhos do coração, e cuida das crianças como se fossem dele. Achei essa atitude incrível, porque, na minha época, era muito difícil um homem assumir uma mulher com três filhos. Ver meu filho fazendo isso… é de encher o coração de alegria.

Meu filho cresceu, se tornou um homem íntegro, responsável e generoso, e ainda assim manteve um coração cheio de amor. Ele me ensinou que a vida pode ser dura, mas que com coragem, dedicação e fé, a gente consegue transformar dor em conquistas.

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Ser mãe me mostrou que não existe obstáculo grande demais quando o amor é verdadeiro. E, acima de tudo, aprendi que o maior orgulho de uma mãe não está apenas nas vitórias que vemos, mas na força, na sensibilidade e na humanidade que os nossos filhos carregam dentro de si.

Leandro, você é a prova de que tudo vale a pena. Te amo mais do que palavras podem dizer, e estarei sempre aqui, torcendo, admirando e aprendendo com você.

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