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Extrema-direita vence eleições estaduais alemãs pela 1ª vez após 2ª Guerra

O partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve neste domingo (06/09) uma votação recorde de 43,8% dos votos na eleição do estado da

11 min

06/09/2026 23:58 • Atualizado há 17 dias

Extrema-direita vence eleições estaduais alemãs pela 1ª vez após 2ª Guerra

O partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve neste domingo (06/09) uma votação recorde de 43,8% dos votos na eleição do estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, segundo resultados provisórios das autoridades locais.

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Se confirmada no resultado final, essa será a maior votação proporcional já recebida num estado alemão por uma legenda tão à direita como a AfD desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A porcentagem coloca o partido no estado bem à frente de legendas tradicionais, especialmente a União Democrata-Cristã (CDU), a sigla do chanceler federal Friedrich Merz, que amargou apenas 17,2% – uma queda de 20 pontos em relação ao último pleito no estado, em 2021.

Já a AfD mais que dobrou os 20,8% de votos obtidos pela legenda no pleito estadual anterior, tendo crescido entre todos os grupos de eleitores da Saxônia-Anhalt, com uma votação especialmente acentuada entre homens e trabalhadores braçais, mas também ampliando seu espaço entre mulheres e jovens. O comparecimento eleitoral no estado também foi alto, de 77,7%, segundo as autoridades eleitorais.

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Após a divulgação das primeiras projeções, o candidato da AfD ao posto de governador da Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, disse à emissora pública ARD que o partido "fez história" e que espera que o partido assuma o governo estadual. Os eleitores, afirmou ele, enviaram um sinal de que "as coisas não podem continuar assim".

"Nossa visão para 2026 se tornou realidade", disse Siegmund em seu discurso de vitória em Magdeburg. "Vamos recuperar nosso país, e estamos começando pela Saxônia-Anhalt. As pessoas deste país estão depositando sua confiança em nós. Não as decepcionaremos", disse Siegmund. "Não nos tornaremos como esses outros partidos. Nós somos a Alternativa para a Alemanha", acrescentou.

O resultado "também um sinal para Berlim", avaliou Siegmund, mencionando a impopularidade do conservador Merz à frente do governo federal alemão. "Friedrich Merz foi um excelente cabo eleitoral para nós nesta campanha", ironizou o candidato.

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Esse também é o melhor resultado estadual já obtido pela AfD desde a sua fundação, em 2013, ultrapassando o recorde anterior de 32,8% obtido no pleito do estado vizinho da Turíngia em 2024.

Apesar do tom triunfal da AfD, as porcentagens indicadas nas projeções ainda deixam em aberto se o partido de ultradireita vai efetivamente governar o Estado de pouco mais de dois milhões de habitantes.

Conquista do governo pela AfD ainda em aberto

Na Alemanha, o sistema para a formação de governos estaduais também é parlamentarista.

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Um partido que obter mais da metade dos assentos no parlamento local conquista o posto de governador do estado. Mas, como nem sempre um partido sozinho conquista tantos assentos, muitas vezes é preciso que legendas formem coalizões para governar.

Como a AfD costuma ser isolada por outros partidos tradicionais alemães, que se recusam a cooperar com a legenda, os ultradireitistas normalmente não conseguem formar liderar ou participar de coalizões, restando lutar para conseguir uma maioria solitária ou no mínimo um cenário favorável para uma administração de minoria.

Apesar do recorde votos, os resultados indicam que a AfD por pouco não vai conquistar uma maioria isolada. Pelos resultados provisórios, os votos do partido devem resultar no controle de 39 das 83 cadeiras no Parlamento da Saxônia-Anhalt.

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Além da AfD e da CDU, outros quatro partidos asseguraram cadeiras no Parlamento local

O partido A Esquerda, obteve 8,6% dos votos. Já o Partido Social-Democrata (SPD), 9,3%. Os Verdes, 8,9%. Por fim, a legenda de esquerda populista “antiwoke” BSW conseguiu 5,3%, ultrapassando por pouco a cláusula de barreira de 5% para garantir assentos no Parlamento. O Partido Liberal-Democrático (FDP, na sigla em alemão), deve amargou apenas 2,6% e assim ficou fora do Parlamento.

Com essas porcentagens, o cenário de governo de maioria isolada para a AfD está fora da mesa, mas uma administração de minoria ainda seria possível, mas isso ainda pode depender da BSW.

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Isso porque a liderança nacional e local da BSW indicou durante a campanha que pretende não se opor a um governo de minoria liderado pela AfD. Foi o único partido que se mostrou aberto para um governo liderado pela ultradireita. Sem oposição de deputados da BSW, outras legendas no Parlamento da Saxônia-Anhalt não teriam votos suficientes para impedir os ultradireitistas de formarem um governo de minoria.

Outro cenário seria alguns deputados estaduais da CDU desertarem e não mostrarem oposição a um governo de minoria da AfD, mas tal possibilidade ainda é puramente especulativa e a liderança conservadora têm se mostrado disposta a agir para manter as rédeas da sua bancada.

Caso a AfD não consiga abocanhar o governo, mesmo numa administração de minoria, o cenário da Saxônia-Anhalt pode permanecer num impasse. Somados, os principais partidos tradicionais não devem ter cadeiras suficientes para um governo de maioria. Mas mesmo uma administração de minoria liderada pela CDU pode se mostrar inviável pela falta de vontade do partido em cooperar com a legenda A Esquerda.

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Potencial resultado de impacto na Alemanha

Caso a AfD venha a assumir o governo, mesmo que na posição de minoria, a mudança marcaria um fim para o longo reinado estadual dos conservadores da CDU, que lideraram todos os governos da Saxônia-Anhalt desde 2002.

Para a AfD, seria um resultado histórico: o primeiro governo estadual da legenda. Para a Alemanha, o resultado também seria impactante, marcando pela primeira vez desde 1945 a ascensão de um governo estadual liderado por uma legenda de ultradireita – com o adicional de que o diretório da AfD na Saxônia-Anhalt é considerado uma "organização extremista de direita" por autoridades de inteligência.

Uma eventual chegada da AfD a um executivo estadual também tem potencial de elevar a pressão sobre Merz, cujo governo federal, que tomou posse em 2025, vem testemunhando um declínio acelerado dos democratas-cristãos entre o eleitorado e um crescimento da AfD em várias eleições estaduais realizadas desde então.

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Parte da imprensa alemã apontou que a eleição deste domingo, embora estadual, traduziu em grande parte o descontentamento nacional com o governo de Merz, que é aprovado por apenas 15% dos alemães, segundo pesquisa divulgada em setembro. O diretório da CDU na Saxônia-Anhalt obteve a sua pior votação desde que o estado foi reunificado com a Alemanha, em 1990.

Em novembro de 2018, quando disputava o posto de presidente da CDU, Merz havia prometido que, sob sua liderança, o apoio eleitoral à AfD poderia ser "reduzido pela metade". À época, a AfD contava com 14% nas pesquisas nacionais e havia recebido 24,3% dos votos na mais recente eleição estadual da Saxônia-Anhalt. Quase oito anos depois da fala, a AfD tem aparecido com entre 27% e 29% das intenções de voto nacionais e, pela primeira vez, rompeu a marca de 40% dos votos num pleito estadual.

Raixo-X da Saxônia-Anhalt

A Saxônia-Anhalt fica no território que compunha a antiga Alemanha Oriental comunista. Mais de 35 anos após a reunificação do país, essa região tem sido o principal reduto da AfD do país.

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O Leste também é mais empobrecido que a maior parte das regiões do Oeste, e a Saxônia-Anhalt é o estado com a menor renda per capita da Alemanha, além de ter a expectativa de vida masculina mais baixa do país e uma taxa de desemprego mais alta que a média nacional.

A partir da década de 1990, a paisagem econômica do estado foi marcada pela perda de postos de trabalho na indústria e mineração, além de um intenso êxodo de jovens para o oeste, que levou a população a cair de quase 2,9 milhões em 1990 para 2,1 milhões em 2025. O estado também é visto como menos atraente por migrantes, e a proporção local de estrangeiros na população é de 7,9%, abaixo da média nacional de 17%.

Desde o fim do regime comunista, em 1990, a Saxônia-Anhalt foi governada majoritariamente por administrações lideradas pela conservadora CDU, com apenas um intervalo de quase oito anos entre 1994 e 2002, quando o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, controlou o posto de governador.

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Atualmente, a Saxônia-Anhalt é governada por Sven Schulze, da CDU, numa coalizão com o SPD e o Partido Liberal-Democrático (FDP).O democrata-cristão Sven Schulze, governador da Saxônia-Anhalt, AfD é classificada como "extremista" na Saxônia-Anhalt

Fundada em 2013, inicialmente como uma sigla eurocética de tendência liberal, a AfD rapidamente passou a pender para a ultradireita, especialmente após a crise dos refugiados de 2015-2016. Conhecida pelas bandeiras anti-imigração, a legenda permanece sob vigilância nacional de órgãos de inteligência por suspeita de abrigar extremistas.

Na Saxônia-Anhalt, o diretório estadual da AfD, assim como de outros estados orientais, é oficialmente classificado desde 2023 como uma "organização extremista de direita confirmada" pelo Departamento de Proteção da Constituição do estado, que monitora de perto as atividades dos seus membros. Nos últimos meses, reportagens da imprensa alemã apontaram conexões de alguns filiados do partido com grupos neonazistas.

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Na Saxônia-Anhalt, o partido é liderado por Martin Reichardt, de 57 anos, atualmente deputado federal. Em junho deste ano, ele se viu envolvido numa controvérsia pública após a divulgação de uma fotografia de 2020 que o mostrou com o braço estendido na direção de um interlocutor, o que o levou a ser acusado de fazer a saudação nazista, proibida na Alemanha. A AfD local negou a acusação e disse que o gesto na realidade não passou de uma irônica "sagração de cavaleiro".

Reichardt, no entanto, não foi o candidato ao posto de governador pelo partido. O aspirante ao cargo é o deputado estadual Ulrich Siegmund, de 35 anos, um vendedor de perfumes que é filiado à AfD desde 2014 e que começou a ganhar proeminência local em 2021, ao lançar uma conta no TikTok, na qual passou a reclamar das restrições impostas pelo governo durante a pandemia de covid-19.

No início de 2024, foi a vez de Siegmund ganhar destaque nacional quando uma reportagem o apontou como participante de uma reunião secreta entre figuras de alto escalão do partido AfD e o extremista de direita austríaco Martin Sellner, no qual foram discutidos planos de “remigração” de estrangeiros e também de cidadãos alemães com origem imigrante.

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Com o slogan de campanha “Tudo é possível”, Siegmund liderou uma campanha com o objetivo de mais do que dobrar os 20,8% dos votos recebidos pela AfD no estado em 2021. Em agosto, a revista semana Der Spiegel estampou na sua capa uma foto de Siegmund com o título “O homem mais perigoso da Alemanha". O político da AfD, liderando uma campanha antissistema, passou a ironicamente autografar exemplares da revista em comícios.

Com a AfD permanecendo em alta nas pesquisas em todo o ciclo eleitoral, os olhos da imprensa alemã também se voltaram para o programa do partido durante a campanha. Nele, há propostas como o fim do direito de asilo e uma moratória na imigração de fora da União Europeia, mas eles dificilmente poderiam ser implementados, já que são temas federais. Mas, em áreas como educação e segurança, os estados alemães têm bastante autonomia.

Na Saxônia-Anhalt, a AfD propôs ainda permitir o ensino domiciliar, além de promover aulas de russo e abolir a "inclusão" de alunos com necessidades especiais em turmas mistas.

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O programa ainda expõe planos para combater "linguagem neutra", "doutrinação" e proibir escolas de hastear a bandeira LGBT do arco-íris e garantir que elas hasteiem a bandeira alemã.

Há ainda uma proposta de reformulação do currículo escolar para reduzir a presença da "cultura da memória", focada nos crimes do período nazista, e, em vez disso, promover eras de "sucesso", ou que um membro da AfD local chamou de "Mais Bismarck e menos Hitler", em referência ao chanceler alemão Otto von Bismarck, que forjou o antigo Império Alemão (1871-1918).

Na área de segurança, a AfD local também defendeu a formação de uma "patrulha cidadã" para auxiliar a polícia. O plano gerou alarme em sindicatos de polícia, que levantaram o temor de formação de "justiceiros". O partido ainda propôs converter um centro de acolhida de refugiados no estado em um centro de detenção, e responsabilizar financeiramente igrejas que acolherem solicitantes de asilo.

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No plano administrativo, membros da legenda também falaram em promover mudanças profundas na agência de inteligência estadual, justamente aquela que classifica a AfD como "extremista". Pelos planos, a agência deixaria de ser usada para enfraquecer "a oposição patriótica" e seria redirecionada para tarefas "mais clássicas", como "contraterrorismo".

Próximas eleições: Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Berlim

A Alemanha ainda será palco em breve de mais duas eleições estaduais, em 20 de setembro, na cidade-estado de Berlim e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Com 1,6 milhões de habitantes e também localizado no leste alemão, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental deve ser palco da mesma dinâmica da Saxônia-Anhalt, segundo pesquisas: crescimento robusto da AfD e declínio de conservadores, social-democratas, verdes e liberais.

No momento, Mecklemburgo é governado por uma coalizão de social-democratas e membros da Esquerda. Pesquisas mostram que a AfD deve formar a maior bancada no estado, conquistando entre 35% e 37% dos votos, mas, ao contrário da Saxônia-Anhalt, o cenário tem se desenhado durante a campanha como mais improvável para um governo da AfD, e os social-democratas, que governam desde 1998, têm maiores chances de permanecer no poder, ainda que na liderança de um governo de minoria.

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Já em Berlim, a AfD tem chance de dobrar seu eleitorado de 9% na última eleição em 2023 para 18%. No entanto, na capital, os olhos do mundo político não estão voltados para a performance da ultradireita, mas para o duelo entre o partido A Esquerda e a CDU, que lideram as intenções de voto numa campanha pulverizada que foi dominada por temas como custo de vida e a crise da habitação da cidade.

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Autor: Jean-Philip Struck.

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