Os pontos fracos na estratégia de guerra de Trump no Irã
Retomada de ataques pontuais visa minar ameaça iraniana no Estreito de Ormuz

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expôs com bastante precisão o que poderá ser a nova fase da guerra contra o Irã. Segundo ele, os iranianos tentaram reconstruir seus sistemas de radar após a mais recente grande onda de ataques americanos.
Continua depois da publicidade
"Esperamos até que eles estivessem quase reconstruídos e então os atingimos", disse Donald Trump.
Na terça-feira (1º), as forças armadas americanas voltaram a atacar numerosos alvos no Irã. Segundo o Comando Central dos EUA (Centcom), foram destruídos, entre outros, sistemas de radar e defesa aérea, instalações marítimas, capacidades de instalação de minas navais e equipamentos de comunicação.
O Irã respondeu com mísseis e drones contra instalações americanas na região. Com isso, concretizou-se aquilo que o Centcom havia indicado poucos dias antes como uma possível estratégia para a próxima fase da guerra.
A estratégia de 'aparar a grama'
Segundo informações do portal de notícias Axios, ataques limitados e repetidos quando necessário teriam o objetivo de impedir que o Irã restabeleça suas capacidades militares no Estreito de Ormuz.
Continua depois da publicidade
Um integrante do governo americano descreveu a ideia usando um conceito da política de segurança israelense: "aparar a grama".
A metáfora descreve uma estratégia que nem sequer promete derrotar definitivamente o adversário. Basta reduzir regularmente suas capacidades militares a um nível que mantenha a ameaça sob controle. Quando a grama volta a crescer, ela é cortada novamente.
Aplicada à situação do Irã, isso significaria que os Estados Unidos monitoram quais capacidades militares o adversário está reconstruindo e voltam a atacar quando um determinado limite é ultrapassado.
Continua depois da publicidade
Sucesso com prazo de validade
Nos últimos meses, os Estados Unidos de fato obtiveram êxitos militares. As forças armadas americanas reduziram significativamente as capacidades militares iranianas no Estreito de Ormuz e iniciaram a remoção de minas navais iranianas.
Mas esses sucessos não são permanentes. Teerã repara ou adquire novos radares, sistemas de defesa aérea e mísseis antinavio.
As bombas americanas podem destruir posições importantes dos iranianos em pontos específicos. No entanto, o conhecimento técnico e a base industrial da tecnologia militar iraniana permanecem intactos.
Continua depois da publicidade
Isso atrasa a reconstrução, mas não a impede. E os Estados Unidos se veem repetidamente diante da mesma escolha: aceitar que Teerã recupere capacidades militares ou voltar a atacar para destruí-las.
Já em abril, a especialista em Oriente Médio Mona Yacoubian, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington, alertou para as consequências dessa dinâmica. Segundo ela, a situação pode evoluir para um "conflito permanente de baixa intensidade, interrompido por intervenções mais intensas".
A vantagem tática do Irã
O fato de a estratégia de "cortar a grama" ter limites também se deve ao fato de ela nunca ter sido concebida para uma guerra contra um Estado.
Continua depois da publicidade
Israel desenvolveu a estratégia para combater atores não estatais, como o grupo palestino Hamas, considerado uma entidade terrorista por alguns países ocidentais.
Mas Yacoubian ressalta que o "corte da grama" pode ser uma "estratégia militar ultrapassada" no caso de adversários com características estatais e capacidades mais robustas.
Isso fica especialmente evidente no Estreito de Ormuz. Enquanto os EUA precisam manter a hidrovia aberta de forma confiável, ao Irã basta que o resto do mundo acredite que a travessia continua perigosa.
Continua depois da publicidade
Mesmo um adversário militarmente muito enfraquecido pode, assim, impor custos consideráveis a Washington.
Além disso, os Estados Unidos enfrentam outro problema: podem controlar a intensidade de seus próprios ataques, mas não a reação de Teerã.
Trump já advertiu diversas vezes o governo iraniano contra qualquer retaliação militar.
Continua depois da publicidade
Apesar desses alertas, o regime iraniano respondeu imediatamente aos últimos ataques americanos com mísseis contra instalações americanas na região. Somente a Jordânia informou que 13 mísseis balísticos cruzaram seu espaço aéreo, dos quais dez foram interceptados.
A questão nuclear
Yacoubian alerta, porém, para um risco ainda maior associado aos ataques regulares dos Estados Unidos: Teerã pode acabar concluindo que uma dissuasão duradoura só poderá ser alcançada "por meio da busca por uma arma nuclear".
Nesse cenário, Estados Unidos e Israel poderiam acabar acelerando justamente o desenvolvimento que pretendiam conter ao atacar o Irã.
Continua depois da publicidade
Sob a perspectiva de Washington, as alternativas para Trump também não parecem muito melhores. Se ele permitir que o Irã recupere força militar na região do Estreito de Ormuz, arrisca novos ataques a embarcações e perturbações em uma das rotas energéticas mais importantes do mundo — com consequências já conhecidas para a economia global.
Apesar das tensões e das negociações repetidas, um acordo político entre Washington e Teerã fracassou até agora devido a divergências aparentemente incontornáveis.
Próxima "guerra sem fim"?
Por outro lado, a estratégia de "cortar a grama" tem seu apelo dentro dos EUA para Trump, apesar de todas as incertezas na política externa: ela dispensa ocupação militar, grandes contingentes de tropas terrestres americanas e esforços de reconstrução nacional ("nation building").
Continua depois da publicidade
Ao mesmo tempo, ao se limitar a "aparar a grama", Trump se distancia das chamadas "guerras sem fim" de governos anteriores na Casa Branca que ele tantas vezes criticou.
No fim, porém, o que parece ser a solução para evitar uma guerra interminável pode ter justamente o efeito contrário.
Para Yacoubian, "cortar a grama" é na verdade uma "estratégia de Sísifo de desgaste sem fim": enquanto Washington não estiver disposto a aceitar, em algum momento, a reconstrução das capacidades iranianas, cada ataque bem-sucedido ensejará uma resposta, perpetuando o conflito.
Continua depois da publicidade
Autor: Andreas Noll
