"Esbarrão coreografado" de Lula e Trump pode debater interferência no Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa nesta terça-feira (22), em Nova York, da abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em meio à

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa nesta terça-feira (22), em Nova York, da abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em meio à expectativa de um novo encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na avaliação do professor de Relações Internacionais da ESPM, Leonardo Trevisan, esse "esbarrão coreografado" pode abrir espaço para discutir interferência externa nas eleições brasileiras.
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"O clima é exatamente para isso. Tem uma definição desse encontro que eu acho bem boa: esbarrão coreografado. Os dois lados coreografaram o esbarrão, e aí veio o papo da química, o presidente Trump sempre com aquela retórica dele mais exagerada, 'eu gostei muito do presidente Lula', aquelas coisas todas", disse Trevisan.
Para ele, os rumos do encontro variam de acordo com o 'humor' do presidente americano. "Tudo isso faz parte do cenário de atuação de Trump, faz parte disso, porque Trump oscila o tempo inteiro como todos nós sabemos. Uma hora ele presta atenção em Marco Rubio, 'endureça mais ainda com a América Latina', e uma outra hora ele presta atenção numa outra diplomacia, um outro fator de aproximação que está escondido não só nos empresários americanos, como em outros interesses para o Brasil e a América Latina".
Expectativa por novo encontro na ONU
Como é tradição, o chefe de Estado do Brasil será o primeiro a discursar na Assembleia Geral, seguido pelo presidente americano. No ano passado, Lula e Trump se encontraram nos corredores da ONU, quando o líder da Casa Branca afirmou ter tido "excelente química" com o brasileiro.
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Interferência nas eleições e "tiro no pé"
Ao analisar a possibilidade do encontro entre Lula e Trump, Trevisan prevê que o tema da possível interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras será tratado pelos líderes. "Vamos ver o que vai acontecer. É bastante provável que esse esbarrão aconteça e ele, de certa forma, produza esses resultados. Algum tipo de aproximação é necessário, porque é evidente, como até a própria Abin, a nossa agência aqui de informação, anotou, está havendo uma concentração de forças e de pressão para mais ação contra o crime organizado".
Na opinião do professor, existe uma "situação densa e complicada" no momento entre os dois países, com os Estados Unidos apontando falhas do Brasil no combate ao crime organizado, mais especificamente às facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). "Tem interesse, sim, dos Estados Unidos, do Trump, dos Estados Unidos, numa posição mais firme com o Brasil, há interesses da outra candidatura (Flávio Bolsonaro) de que isso ocorra, porém, eu acho que existe a possibilidade do tiro no pé".
Trevisan avalia que qualquer tipo de interferência é mal vista pelo eleitorado brasileiro, seja ele de qualquer ideologia. "Se a gente olhar com alguma cautela, o melhor momento da trajetória política eleitoral para a reeleição de Lula foi exatamente quando ocorreu essa face mais firme, essa coisa mais real de um ataque americano. Se tem uma coisa que eu estou absolutamente convicto é que o eleitor brasileiro, de forma geral, tanto mais progressista como mais conservador, não gosta de interferência externa".
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"Vamos prestar bastante atenção nisso. Tanto o conservador como o progressista, em diferentes momentos da história brasileira, seja de maior escolaridade ou menor, de maior renda ou menor, tem muito claro uma frase que todo mundo entende: na minha casa mando eu. Ponto. Então, portanto, certas interferências externas, se elas forem muito declaradas, se elas forem muito ameaçadoras, o eleitor vai preferir muito mais agir dessa forma. Tanto a direita como a esquerda. O risco é alto de ser tiro no pé e, de alguma forma, me parece que a diplomacia americana, a outra, não a de Marco Rubio, sabe disso", disse Trevisan.
"Show eleitoral" de Trump
Se o encontro pode servir para Lula firmar posição em favor da soberania nacional, também deve ser usada por Trump com objetivos eleitorais, principalmente de olho no pleito legislativo de meio de mandato marcado para 3 de novembro. "Vai fazer parte do show de Trump. Esse ponto é essencial. É bastante provável que alguma coisa aconteça no Atlântico, no Pacífico, principalmente envolvendo Colômbia, para fazer parte daquele show característico que Trump está montando. A mesma coisa com Groenlândia, a mesma coisa com outras situações. Trump percebe isso e, de algum modo, é característico da ação dele", disse Trevisan.
