Política

Facções, tarifas e mais: os 6 temas que devem ser abordados por Lula na ONU

Presidente brasileiro deve focar crime organizado, comércio global, soberania política e papel da organização

5 min

22/09/2026 06:26 • Atualizado há 2 dias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abrirá nesta terça-feira (22) a 81ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas com um discurso que, segundo o professor de Relações Internacionais da ESPM Leonardo Trevisan, deve combinar pautas nacionais com a defesa do multilateralismo e da soberania dos Estados.

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Como é tradição na Assembleia Geral, o Brasil será o primeiro país a falar na plenária, e Lula deve usar a visibilidade da tribuna para enviar recados simultaneamente à comunidade internacional e ao eleitorado brasileiro, de acordo com Trevisan.

O que deve entrar no discurso

Diante da plateia global, o chefe de Estado brasileiro tende a priorizar questões estruturais da ordem internacional, sem deixar de falar a seu público interno. Entre os temas previstos estão:

  • cooperação internacional contra o crime organizado e destaque para a nova legislação brasileira;
  • resposta às tarifas comerciais impostas de forma unilateral pelos Estados Unidos;
  • defesa da soberania política do país e da não interferência externa nas eleições;
  • reforma do Conselho de Segurança e fortalecimento do sistema multilateral;
  • cobrança por governança global mais efetiva diante das guerras em curso;
  • debate sobre o papel da ONU num cenário de ascensão de novas potências e dos BRICS.

Crime organizado e tarifas na mira

Para o professor, Lula deve adotar um tom mais institucional, adequado à liturgia da Assembleia Geral e o combate ao crime organizado e, em especial, às facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) devem ganhar atenção especial. no dircurso.

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"É um tom mais litúrgico, é um tom mais de Assembleia da ONU, é um tom mais de polidez, menos campanha eleitoral e, de certa forma, mais espaço para uma ação mais concreta. Está mais ou menos definido quais serão os pontos do discurso de Lula. O primeiro é a cooperação internacional no crime organizado, Lula vai enfatizar muito isso porque é evidente que esse é a grande ponta, o grande interesse internacional. Lula vai enfatizar isso para desarmar qualquer desculpa de interferência por parte de Trump: 'Nós já estamos fazendo a lição de casa. Está aqui, temos a Lei Antifacção'. Ele vai enumerar tudo isso", disse Trevisan.

As tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos e seus impactos para o comércio global também ganharão atencial especial de Lula, principalmente porque é um tema de relevância nacional, mas que também afeta outros países presentes na reunião. "O segundo, é claro, não vai deixar de lado, é tomar cuidado com as críticas relativas às tarifas internacionais, nacionais, as tarifas comerciais do presidente Trump. Não há dúvida que ele vai tocar no assunto porque isso é de interesse nosso e é de um interesse global. Não é só o Brasil que é afetado por tarifas unilaterais americanas. Então, Lula vai aproveitar para falar nesse tom".

Eleições brasileiras e soberania

Outro ponto central, na visão do professor, será a defesa da soberania política do país, tão defendida por Lula nos últimos meses, e o recado contra qualquer interferência externa no processo eleitoral. "O terceiro ponto, eu acho que ele vai refletir bastante e insistir bastante, está mais ou menos programado, de não interferência nas eleições brasileiras. Ele vai usar a tribuna da ONU para deixar bem claro, e esse ponto eu acho que tem muito a surgir, muito a se desenhar para as eleições internas. Os outros assuntos é para a tribuna da ONU, mas esse assunto da não-interferência é para o eleitor brasileiro".

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Reforma do Conselho de Segurança e guerras esquecidas

Segundo Trevisan, Lula também deve retomar a tradicional defesa brasileira de reformas na arquitetura das Nações Unidas, em especial no Conselho de Segurança, com foco no fortalecimento do multilateralismo. "Não há dúvida que Lula vai mexer, vai vai cutucar o vespeiro da reforma da ONU, não há dúvida nenhuma. É tradição, o Brasil sempre pede a reforma do Conselho de Segurança, que o Lula vai defender o multilateralismo. Não há dúvida que pelo menos um parágrafo virá daí. Mauro Vieira, os diplomatas profissionais brasileiros vão fazer muita pressão nesse sentido. E é claro que Lula vai pedir. E esse ponto vai ser importante, provavelmente será o fecho".

O presidente, de acordo com o professor, tratará de guerras esquecidas e não noticiadas pela imprensa e dará sequência à tradição da diplomacia brasileira. "Ele (Lula) vai pedir alguma governança global mais efetiva quanto às guerras. Lula tem falado muito isso. A gente tem muita notícia das duas grandes guerras: a do Oriente Médio e a da Ucrânia. Meu Deus, o mundo tem hoje, é inacreditável isso, 65 guerras ocorrendo que não saem nos jornais. A maior delas no Sudão, com milhares de mortos. Então, de alguma forma, quando você olha para isso, é obrigação, e essa é a tradição da diplomacia brasileira, de sempre falar num tom de conciliação."

O futuro da ONU em debate

Usando esse gancho, Trevisan amplia a análise para o cenário mais amplo da organização e questiona qual será o papel da instituição diante das novas tensões globais. O papel da ONU diante das mudanças será tema do discurso de outros chefes de Estado na cerimônia.

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"Primeiro de tudo, a gente vai ter que notar que o mundo não tem mais um feitio de uma mesa decisória com poucas cadeiras. A ascensão de uma posição mais autoritária, a ascensão de uma posição mais radical na Europa, vai vai ser objeto de discussão na ONU. Isso tudo preocupa o mundo. De algum modo, a questão BRICS, o que aconteceu na semana passada na Índia, na reunião com o Putin e o Xi Jinping, aparecerá também, isso também surgirá. Mas eu desconfio que o ponto mais forte em todo esse contexto será efetivamente o que fazer da ONU. A ONU não pode continuar na situação em que está", disse o professor.

A sucessão do atual secretário-geral da entidade, o diplomata português António Guterres, que está no cargo desde 2017, e a própria sobrevivência da ONU devem ser discutidos também. "A ONU vive um impasse muito forte, primeiro de tudo financeiro, primeiro de tudo com seus programas atrasados, e o mundo terá que decidir se quer uma ONU ativa, e de certa forma, se é necessária a ONU ou se vamos pretender viver sem ela. Fora o que vai aparecer, evidente, é a sucessão. Guterres já está há 10 anos no poder. Vai aparecer, sem dúvida nenhuma, uma posição internacional relativa a isso".

Facções, tarifas e mais: os 6 temas que devem ser abordados por Lula na ONU