Endometriose atinge 15% das brasileiras, mas diagnóstico leva até 7 anos
Uma dor incapacitante que impede de trabalhar, estudar ou manter a rotina não deve ser considerada "apenas uma cólica comum". Esse sinal de alerta, muitas

Uma dor incapacitante que impede de trabalhar, estudar ou manter a rotina não deve ser considerada "apenas uma cólica comum". Esse sinal de alerta, muitas vezes normalizado pela sociedade, pode ser o indício de endometriose — condição inflamatória que afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde. No mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 190 milhões de mulheres convivam com o problema.
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Apesar da alta prevalência, o caminho até a confirmação da doença ainda é longo: no país, leva-se em média sete anos entre o início dos primeiros sintomas e o diagnóstico definitivo. "Nem toda cólica indica endometriose, mas a dor que se repete, piora ao longo do tempo ou interfere no trabalho, nos estudos e na vida sexual não deve ser banalizada. Nesses casos, é importante investigar a causa e buscar o cuidado adequado", alerta o Sérgio Rocha, ginecologista da Santa Casa de São Roque (SP), unidade gerenciada pelo CEJAM.
O que é a endometriose?
A endometriose é caracterizada pelo crescimento de um tecido semelhante ao endométrio — camada que reveste o interior do útero — fora da cavidade uterina. Esses focos inflamatórios costumam se alojar em órgãos e estruturas da pelve, como os ovários e tubas uterinas, peritônio, bexiga e ureter e até o intestino.
As causas exatas da endometriose ainda são investigadas pela ciência, mas a principal hipótese inclui a menstruação retrógrada (quando parte do fluxo menstrual volta pelas tubas uterinas para o abdômen), combinada a fatores genéticos, imunológicos e hormonais.
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Sinais de alerta: quando a cólica não é normal
As manifestações costumam começar ainda na adolescência com cólicas menstruais fortes e progressivas. No entanto, outros sintomas frequentes exigem atenção, como dores pélvicas fora do ciclo menstrual, durante ou após as relações sexuais, sangramento ao urinar ou evacuar, alterações intestinais e urinárias cíclicas, fluxo menstrual excessivo e difiuldades para engravidar.
Especialistas ressaltam que o nível de dor não reflete diretamente a gravidade das lesões. "Algumas mulheres apresentam lesões mais avançadas e poucos sintomas, enquanto outras convivem com dores incapacitantes mesmo diante de alterações aparentemente pequenas. A avaliação precisa focar no impacto real na qualidade de vida da mulher", pontua Sérgio Rocha.
Por que a confirmação demora tanto?
O principal entrave para a detecção rápida é a banalização da dor, que muitas vezes é minimizada pela própria paciente, por familiares e até em atendimentos médicos iniciais.
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Além disso, os sintomas se confundem facilmente com outras enfermidades, como a síndrome do intestino irritável, infecções urinárias de repetição, miomas e adenomiose. Com isso, muitas mulheres passam por múltiplos especialistas e tratamentos pontuais antes que a suspeita de endometriose seja levantada.
Como é feito o diagnóstico no SUS
A busca por ajuda deve começar na atenção básica, em Unidades Básicas de Saúde (UBS), ou em consultas ginecológicas. O volume de atendimentos na rede pública demonstra a extensão do problema: apenas em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou cerca de 145 mil atendimentos para investigação de endometriose na atenção primária, mais de 53 mil na especializada e cerca de 19,5 mil internações.
Para mapear a doença, são indicados exames de imagem direcionados, como:
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- Ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal;
- Ressonância magnética da pelve.
O especialista lembra que exames normais não descartam a doença se os incômodos persistirem: a avaliação clínica e o relato da mulher são peças-chave. Caso haja suspeita clínica forte, o tratamento pode ser iniciado mesmo antes da confirmação cirúrgica ou por imagem.
Tratamentos disponíveis e planos reprodutivos
O manejo da endometriose é contínuo e individualizado, combinando analgésicos, anti-inflamatórios, terapias hormonais, fisioterapia pélvica e suporte psicológico.
A abordagem cirúrgica (como a videolaparoscopia) é reservada para casos específicos, como dor refratária aos medicamentos ou risco de comprometimento de órgãos vitais. Além disso, avanços recentes no SUS reforçaram o arsenal terapêutico: desde 2025, foram incorporados à rede pública o dispositivo intrauterino (DIU) liberador de levonorgestrel e o desogestrel, facilitando o controle dos sintomas e a contenção da doença.
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"Receber o diagnóstico não significa necessariamente que a paciente precisará de cirurgia ou que não poderá ser mãe. O tratamento é desenhado respeitando os objetivos de vida da paciente, incluindo os planos de gravidez", conclui o médico.
